CADÊ O SOCORRO? Diretor do Hospital Sanatório justifica atraso salarial de funcionários


“Não se trata de incompetência da gestão, trata-se de um fato histórico único no bairro do Pinheiro, que levou à situação que estamos”, afirma Júlio Bandeira

Júlio Bandeira, diretor administrativo do Hospital Sanatório

Na última sexta-feira (27), foi divulgada a denúncia de que, em meio à pandemia do novo coronavírus, o Hospital Sanatório está atrasando, mais uma vez, os pagamentos de seus funcionários. Nesta segunda-feira (29), o médico e diretor administrativo do hospital, Júlio Bandeira, entrou em contato com a redação da Agência de Notícias Alagoas (ANA) para confirmar a situação e esclarecer os motivos da dificuldade financeira pela qual a unidade está passando.

A primeira justificativa tem como base as condições geológicas na região do Pinheiro e adjacências, decorrentes da extração de sal-gema pela empresa Braskem. Em face da instabilidade do solo e consequentes rachaduras nos edifícios, foi decretado estado de calamidade pública nos bairros afetados e o Hospital Sanatório se encontra nessa localidade. Com isso, houve uma grande evasão de pacientes, que gerou uma redução drástica nas receitas do estabelecimento.

Outro fator é que a unidade não está recebendo os repasses do governo de Alagoas, decorrentes dos atendimentos prestados aos beneficiários do Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores do Estado de Alagoas (Ipaseal). Tais recursos estão atrasados desde 2017 e somam mais de R$ 5 milhões que não foram repassados ao hospital.

Em 2019, o governo fechou acordo, diante do Ministério Público do Trabalho (MPT), para pagar o débito de forma parcelada. A mensalidade seria de R$ 300 mil e o dinheiro teria como destino prioritário o pagamento de férias atrasadas e a manutenção dos salários dos funcionários, entretanto, o acordo não está sendo cumprido em sua totalidade por parte do Estado.

Antes e depois

A receita mensal do hospital costumava ser formada por cerca de R$ 1,5 milhão pelo atendimento à saúde pública e por volta de R$ 2 milhões advindos da rede privada. Após a situação geológica, iniciada em 2018, e a emissão do decreto de calamidade pública, em 2019, somadas à necessidade de desocupação dos bairros afetados, os valores recebidos por mês reduziram aproximadamente 60%. “Imagine como seria receber apenas 40% do seu salário, agora pense que o hospital está recebendo isso há dois anos. Não é uma situação fácil”, frisou o diretor.

Segundo ele, por mês, eram realizadas aproximadamente 500 cirurgias de média e alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e atendidos 300 pacientes vindos do HGE. Atualmente, esse números reduziram em um terço. Também recebiam entre 1500 a 1800 pacientes na emergência pela consulta popular e o mesmo número por convênios ou particulares. Hoje, com a evasão, atendem apenas por volta de 400 a 500 pacientes em cada esfera, pública e privada. Isso equivale a um prejuízo mensal de cerca de R$ 800 mil do incentivo do SUS e R$ 1,2 milhão dos convênios.

Outros motivos

Mais uma situação apresentada por Júlio foi o projeto de modernização do hospital realizado nos últimos dez anos. Ele relata que foram investidos R$ 18 milhões, provenientes de empréstimos e emendas parlamentares, em total reformulação do prédio, incluindo investimentos tecnológicos e ampliações. No entanto, parte da nova estrutura não pôde ser inaugurada porque coincidiu com a situação de calamidade. Isso significa que, no momento em que o hospital deveria estar oferecendo serviço de qualidade e recuperando o dinheiro investido, passou a haver uma retração na receita.

“Infelizmente, após todo o esforço, ‘morremos à beira da praia’ por estarmos na área de riscos no caso da Braskem. Tivemos que suspender a inauguração da UTI [Unidade de Terapia Intensiva], mesmo com todos os equipamentos já comprados. Ao todo são menos dois milhões de reais por mês”, lamenta o médico. Além dessa conjuntura, o diretor destaca que as negociações de indenização com a Braskem e de apoio financeiro municipal e estadual andam a passos lentos.

Para agravar o cenário, com a atual condição de pandemia causada pelo novo coronavírus, foi emitido o decreto de calamidade sanitária. Recursos estão sendo destinados às empresas prejudicadas por causa das medidas de isolamento social, no entanto, o diretor garante que o HS não está recebendo nenhum tipo de auxílio ou isenção.

“Nós somos o único hospital público no bairro e não estamos recebendo nenhum auxílio. Mesmo com o decreto de calamidade pública o hospital nunca recebeu incentivo financeiro. São 17 meses de férias em atraso, atraso de dois meses de salário, tanto de colaboradores quanto de fornecedores e prestadores de serviço. Agora tem o decreto de calamidade sanitária, que prevê apoio financeiro à outras empresas, como a suspensão de alguns débitos, mas para o hospital nada foi feito. Não se trata de incompetência da gestão, trata-se de um fato histórico único no bairro do Pinheiro, que levou à situação que estamos”, pontuou Júlio Bandeira.

Foto: Jonathan Lins

A solução

Segundo o médico e diretor, o que vai resolver definitivamente a questão financeira do Hospital Sanatório é a indenização do prédio pela Braskem, com acréscimo de lucro cessante. Ele explicou que existem dois caminhos que precisam ser seguidos para sair dessa situação: o primeiro, a curto prazo, é a unidade continuar em operação, com os pagamentos do governo e incentivos diante dos decretos de calamidade em vigor; e o segundo, a médio prazo, é a construção imediata de um novo hospital pela Braskem, para que saiam da área de risco por conta da instabilidade do solo.

As instituições estão em negociação há dois meses. Já foram entregues à Braskem todos os dados para proceder com a indenização e dar início ao projeto de construção da nova unidade, cuja estimativa de conclusão é de um ano e meio a dois anos. “A direção do hospital tem procurado primeiro definir a nova área de instalação, mas há uma inflação nos valores dos terrenos. Primeiro queremos entrar em negociação com a Braskem. Já fizemos um levantamento de como era a receita antes do caso [Pinheiro] e como está agora, dois anos depois, inclusive com diversas demissões. Avaliamos o impacto que teve tanto na estrutura do prédio quanto na operacionalidade do hospital”, declarou Bandeira, dizendo ainda que há a pretensão de estabelecer o novo prédio na parte baixa da cidade, por já ter hospitais de referência na parte alta.

Para o médico, o Estado deveria injetar recursos a fim de retomar as metas cirúrgicas para ter um crescimento na receita. “Deveria ter o socorro das esferas municipal, estadual e federal. Ter de imediato um subsídio referente à evasão de receitas para manter os serviços em funcionamento. Estamos trabalhando de forma precária. Estamos recebendo R$ 1,5 milhão para pagar R$ 3,5 milhões. Não tem como manter isso durante dois anos”, reforça o diretor.

Ele afirma ainda que, se obtiverem integralmente o dinheiro do Ipaseal, será possível adiantar parte das férias dos funcionários e pagar fornecedores e prestadores de serviço durante dois meses. Há a expectativa de que esse valor seja recebido nos próximos 20 a 30 dias. Também prevê que se tivessem a receita do SUS, mais algum subsídio, daria para manter o funcionamento mínimo do hospital.

Combate ao coronavírus

O governador do Estado, Renan Filho, fez uma visita ao Hospital Sanatório no último sábado (28) para verificar os ambientes que foram reformados e designá-los como locais de suporte às vítimas do coronavírus. São 15 leitos de UTI e 22 leitos auxiliares diretos para os casos de Covid-19 e a mesma quantidade para casos clínicos. Ou seja, estarão à disposição 30 leitos de UTI e 44 auxiliares, ao todo.

O diretor Júlio Bandeira ressalta a expectativa de que a unidade se torne referência no combate à Covid-19 e que, com isso, as receitas voltem a melhorar para que seja valorizado o trabalho dos colaboradores. Ele também reforça o compromisso do hospital com a qualidade no atendimento e que, mesmo com a atual situação financeira prejudicada, o estabelecimento não deixa de seguir todas as regras dos órgãos fiscalizadores.

Foto: Divulgação