Reitor de universidade americana diz que educação brasileira tem que mudar muito para chegar ao nível dos EUA


Brasileiro e reitor de universidade nos Estados Unidos, Dr. Italu Colares faz comparação entre o sistema educacional brasileiro e o norte-americano. No entanto, é preciso entender que antes de chegar no padrão deles, é necessário compreender a história de como surgiram o formato das escolas como são conhecidas.

Voltando à Grécia antiga, é bom lembrar que havia escolas, mas não no modelo formal de universidades como é conhecido atualmente. No período das comunidades eclesiásticas, já existia um prenúncio da Educação à distância com a leitura das cartas apostólicas para essas comunidades. No período do poder da igreja nasceram as primeiras universidades na Europa. Sem as igrejas não teríamos o conceito de universidade que se conhece atualmente. Já na época do escolasticismo, muito foi debatido acerca de teologia e filosofia nas escolas escolásticas.

Nos Estados Unidos a Primeira universidade criada foi a Universidade de Harvard que nasceu em 1636 com o nome de New College. Posteriormente esse nome foi mudado inspirado no Teólogo John Harvard.  Enquanto isso, o Brasil foi colonizado pelos portugueses a educação dos índios se deu com a companhia de Jesus liderada por Inácio de Loyola para a catequese dos mesmos. Os padres ensinavam os índios com ressalvas.

Segundo o professor Dr. Italu Colares, apenas os filhos dos senhores feudais tinham condições de estudar em Portugal, pois no Brasil não existiam universidades: “Por isso, quem desejasse ir para a universidade tinha que ir para Portugal e ter dinheiro para isso”. Até o início do século XIX, não existiam cursos superiores no Brasil. “O país era colônia portuguesa e as graduações eram proibidas nas terras brasileiras. Quem tinha oportunidade financeira ia estudar nas já tradicionais universidades de Portugal, principalmente para a Universidade de Coimbra, a mais antiga portuguesa, fundada em 1290”, detalha.

Chegada dos portugueses ao brasil gera criação de escolas

A chegada da família real portuguesa ao Brasil é um marco importante para que o país começasse a escrever sua história no Ensino Superior. A corte desembarcou no Brasil no dia 22 de janeiro de 1808. Nesse mesmo ano, surgiram as duas primeiras escolas brasileiras de Medicina. Conforme detalha Dr. Italu, “nem um mês após a chegada de Dom João VI,  ele assinou o documento para a criação da Escola de Cirurgia da Bahia, em 18 de fevereiro, em Salvador. Pouco depois, em 2 de abril, outro decreto criou a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro, que era abrigada no Hospital da Misericórdia”.

Vale lembrar que, apesar do preconceito contra a educação a distância, o EAD surgiu com cursos de qualificação profissional no Brasil. Dr. Italu destaca que “o registro mais remoto data de 1904, com um anúncio nos classificados do Jornal do Brasil de um curso de datilografia (para usar máquinas de escrever) por correspondência. Posteriormente com a criação do rádio e da TV foram implementados nessa modalidade novos recursos que seriam o início da educação eletrônica. Deve-se ter em mente que o EAD nasceu na Europa. Foi aos Estados Unidos até chegar em 1904 ao Brasil. Ambos tinham uma educação mais avançada do que a educação brasileira”, explica.

Mudanças após a criação do MEC

Uma curiosidade, conta Dr. Italu: “O MEC somente nasceu em 14 de novembro de 1930. Isso quer dizer que não havia o tal para regulamentar o ensino brasileiro”. Depois da criação deste, aconteceram os Acordos entre o MEC e a USAID que foram implementados no Brasil com a lei 5.540/68. “Foram negociados secretamente e só se tornaram públicos em Novembro de 1966 após intensa pressão política e popular. Foram estabelecidos entre o Ministério da Educação (MEC) do Brasil e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) para reformar o ensino brasileiro de acordo com padrões impostos pelos EUA. Apesar da ampla discussão anterior sobre a educação, iniciada ainda em 1961, essas reformas foram implantadas pelos militares no período do regime militar em 1964”, sintetiza o professor.

A reforma mais visível ocorreu na re-nomeação dos cursos. Os antigos cursos primário (5 anos) e ginasial (4 anos) foram fundidos e renomeados como primeiro grau, com oito anos de duração. Já o antigo curso científico foi fundido com o clássico e passou a ser denominado segundo grau, com três anos de duração. O curso universitário passou a ser denominado terceiro grau. Essa reforma eliminou um ano de estudos, fazendo com que o Brasil tivesse apenas 11 níveis até chegar ao fim do segundo grau enquanto países europeus e o Canadá possuem um mínimo de 12 níveis. O professor recorda que “a repressão então gerou assim uma violenta oposição liderada por diversos setores contra os acordos MEC-USAID, o que chamou a atenção da opinião pública mundial. Pressionado, o governo militar acabou criando em 1968 um grupo de estudos encarregado de trabalhar na reforma com uma proposta abrasileirada”. Logo, “Infelizmente o acordo foi rompido”, lamenta.

Dr. Italu enfatiza que com essa ruptura é importante analisar os três principais sistemas de ensino: Francês, americano e alemão. “Analisando a risca, por mais que os Estados Unidos tenham influenciado a educação brasileiro, o modelo predominante no Brasil é o sistema francês de ensino. Esse sistema para ser claro possui 3 pilares: submissão ao estado, qualificação de mão de obra para trabalhar para esse mesmo estado e o ensino é principal sendo executado desatrelado da pesquisa. Mesmo as universidades que alegaram um enamoramento com o sistema alemão de ensino (ensino e pesquisa caminham juntos indiferente aos interesses estatais) hoje a realidade não se mostra o intento inicial”, completa.  Na América a ênfase se dá na criação de conhecimento onde todos os alunos participam e podem expor suas ideias. “Nos Estados Unidos, o aluno deverá vencer sua timidez e se expressar”, conta Dr. Italu.

Diferenças entre os sistemas brasileiro e norte-americano

Nos seminários presenciais não há tanta participação do aluno, porém nos grupos de discussão a participação deste é uma constante. “Enquanto os alunos são mais passivos no Brasil, os estudantes devem ser bastante ativos na educação americana. As aulas presenciais são mais curtas, porém existem mais trabalhos e exigência de produção técnica por parte da universidade para com o aluno. Durante o programa inteiro cursado, o estudante deverá escrever textos acadêmicos, resenhas e resumos de cada uma das disciplinas cursadas para que possa concluir seu programa de estudos”, compara.

Além disse, o Dr. Italu pondera que “no Brasil a maior parte das disciplinas é obrigatória. Nos Estados Unidos existem as obrigatórias e as eletivas. A grade na América é aberta e flexível. Você pode fazer uma mesma aula onde acadêmicos de cursos diferentes estão presentes”.

Outro detalhe importante é que “nos Estados Unidos, as universidades funcionam com uma grande autonomia estando submetida unicamente as normas estatutárias. As mesmas se vinculam aos órgãos reguladores de educação (departamentos de educação de cada estado) não por imposição, mas por vontade própria além de fazer o mesmo com agências acreditadoras. Essas nasceram muito posterior ao nascimento das primeiras universidades”.

A modalidade de educação a Distância já em tempos remotos era utilizada nos Estados Unidos e na Europa. Logo, Dr. Italu lembra que “então é bastante comum a metodologia da auto aprendizagem. Isso evolui mais ainda com a disseminação da internet arrobando as portas de vez para a educação eletrônica.  Os Estados Unidos hoje ocupam a quinta melhor educação do planeta enquanto o Brasil está muito aquém do ideal”.

Uma análise do que poderia ter sido feito

Diante de tantas diferenças entre a educação brasileira e americana, Dr. Italu Colares pensa que o Brasil rompeu o acordo com a USAID cedo demais: “o Brasil deveria aprender com a América. Somente dois séculos depois dos Estados Unidos o Brasil teve sua primeira escola. Além disso, o Brasil deu muita ênfase a formar trabalhadores para o estado e por causa disso se tem poucos pesquisadores, muitos trabalhadores e poucos trabalhando gerando assim um alto grau de desemprego no país tropical. Gera pessoas cada vez menos competentes e isso faz com que estejamos de mal a pior na educação. Uma parceria novamente com os Estados Unidos cairia muito bem para avançarmos na educação. Também uma maior autonomia das universidades brasileiras, além de uma reforma completa na legislação educacional brasileira”, finaliza.

Raphael Lucca – MF Press Global