ARTIGO: Hospitais filantrópicos: desafios da gestão em tempos de pandemia


Por Edgar Antunes Neto*, Adeilson Loureiro** e Rodrigo Bomfim***

A segunda onda do Coronavírus e os reflexos nos pacientes com Covid-19 (pasmem!) sufoca de maneira sem precedentes todos os protagonistas do setor da Saúde, sobretudo, porque ninguém imaginava o teor deste repique em todos os seus aspectos. Mais do que isso. Infelizmente, não há atenuantes para essa situação no horizonte, e precisamos oferecer soluções urgentes para estancar a insolvência do setor, conforme ilustrado no quadro 1, o qual apresenta o panorama da situação atual.

Senão, vejamos: o aumento do número de casos, redução na idade dos pacientes e maior gravidade em todos os marcadores da doença, sugere, sem comprovação científica, que este vírus se fortalece em grande escala, contrariando para pior a mais pessimista expectativa.

Outros contornos dessa crise sanitária precisam ser apontados de maneira clara e sem arrodeios: a falta de medicamentos – com o consequente desabastecimento -, e o aumento de preços que aconteceu no fim da primeira onda, por volta de setembro passado. Agora, lamentavelmente, essa realidade está bem na nossa cara já no começo desta segunda onda.

Inúmeros Conselhos Regionais de Medicina vêm alertando, a maioria por nota técnica, sobre a grave situação do (des)abastecimento de medicamentos e, em alguns casos, suplicando aos médicos por economia dos insumos, o que convenhamos, trata-se de uma recomendação sem precedentes.

Se o caro leitor observar o quadro 2, acima que apresenta a disparada de preços (até 1.500%+) e do consumo (até 900%+), a comprovação é imediata: aumento da demanda pelas características da doença neste momento e a cruel disparada nos preços que, juntos, transformam-se na fórmula da ruína.

Uma lógica perversa e inesperada está instalada, corroendo os orçamentos dos hospitais filantrópicos que buscam um equilíbrio econômico-financeiro para manter o atendimento.

 Tragicamente, não há oferta de analgésicos, bloqueadores e anestésicos no mercado nacional e, por outro lado, sabemos que a produção da indústria farmacêutica brasileira está em dificuldades por várias razões, as quais deveriam ser melhor esclarecidas pelos líderes do setor. Isso a bem da verdade.

A importação direta pelos hospitais esbarra na alta do dólar e numa montanha de licenças e outros papéis que consagram a frieza da burocracia em tempos de guerra contra um inimigo invisível, inacreditável.

Somos médicos da chamada linha de frente, por hora cuidando da gestão do maior hospital de Alagoas, dedicado a pacientes com Covid-19 e outros de inúmeras doenças, e juntamos-nos, neste artigo, para oferecer fatos observados e vividos por quem, está todos os dias de frente com os problemas, e não distante, como num mundo paralelo ou em um escritório refrigerado gastando tempo e dinheiro, imaginando um “faz de conta” interminável.

Fomos pacientes também, pois tivemos Covid-19 e nos afastamos do hospital em períodos diferentes, passando a trabalhar de casa até que a doença levou um de nós ao internamento. Contudo, todos estamos bem, o que em certa medida nos aprimorou pelos males sofridos com a doença, vividos na própria pele.

O Hospital Veredas é referência no tratamento da Covid-19, e foi a instituição, enquanto unidade hospitalar, quem mais ofereceu atendimento, seja por meio do Gripário – Centro de Síndromes Respiratórias -, Pronto Atendimento, internamentos em leitos da enfermaria, intermediários e UTI para pacientes do SUS, desde os primeiros dias de março do ano passado até esta data. E assim continuamos.

O Veredas, como é conhecido, acolheu também um expressivo número de pacientes oriundos de convênios (planos de saúde) e atendimentos particulares.

Temos que conviver com as dores dos que perderam seus entes queridos, mas logramos devolver ao seio familiar milhares de indivíduos curados, mediante alta médica, e entre esses pacientes, dezenas que ficaram sob nossos cuidados por até 90 dias.

Atualmente, contamos com cerca de 2.000 colaboradores, entre os quais 1.600 são profissionais de saúde, incluindo 400 médicos. Diariamente, toda essa gente vive o desafio de se organizar em torno de realidades que se movem ao sabor do imponderado, que é fruto da falta de distanciamento social, ausência de higiene recorrente das mãos, não uso da máscara e, acima de tudo, a vacinação ainda incipiente.

Experimentamos poucos meses de alguma estabilidade nas atividades hospitalares e, mesmo sem que isso sugerisse normalidade, entramos novamente no redemoinho de suspender cirurgias eletivas e alguns procedimentos, ampliar alas de isolamento, reativar setores e fazer contratações de emergência.

Também estão na nossa porta milhares de pacientes que, não obstante o êxito na cura da Covid-19 apresentam sequelas com mais de 100 sintomas diferentes de natureza pneumológica, neurológica, psicológica e ortopédica, as quais exigem para já um serviço de acompanhamento pós-Covid.

Portanto, faz-se necessário que o Congresso Nacional olhe para a Lei 14.061, de 23 de setembro de 2020, e encontre a forma mais adequada para que Vossa Excelência, o Senhor Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, sancione um novo instrumento jurídico que permita recuperar as condições de gestão, assim como foi no ano passado (quadro 3).

Ao escrever este artigo, o que nos motiva, além de qualquer obstáculo financeiro, técnico ou logístico, é o fato de que fizemos o juramento de Hipócrates. E em nome desse compromisso, apelamos a quem possa participar das soluções que nos ajude e colabore com os hospitais filantrópicos do Brasil, pois não temos mais vagas para problemas.

 

Os autores são médicos que atualmente cuidam da gestão do Hospital Veredas (Maceió – AL), ocupando os cargos de Diretor Presidente*, Diretor Administrativo-Financeiro** e Diretor Médico***.